Patrícia Quaresma Ragone
textos

Eu era gente pequena, menina ainda e gostava de me assentar na janela do meu quarto do segundo andar da minha casa e fica olhando para o céu ao entardecer. E lá eu me encontrava com as estrelas, com o sopro dos ventos e com o canto dos passarinhos, cujos ninhos se faziam entre as telhas bem próximas de minha janela.
Fica a lembrança, quando nestes momentos, de uma sensação gostosa, que parecia me fazer sentir forte, grande e inteira. Era como se eu estivesse em um trono, pódio, topo. E era apenas o alto da janela azul marinho da minha linda casa branca de infância. Era o céu lá longe, aqui tão perto e dentro de mim. E lá eu me encontrava com as estrelas, com todas elas nos seus tamanhos, cores e ritmos variados. Nós fomos nos fazendo amigas. Parecia que, ao olhá-las com meus olhos grandes, elas respondiam e me acenavam com um sorriso largo. E aí de novo eu sentia aquela coisa gostosa, uma alegria que fazia cócegas lá dentro da minha alma. E nós trocávamos sorrisos e até gargalhadas. Que saudades eu tenho hoje! E dali eu emendava sonhos. O sonho de ter um céu estrelado só para mim, para que eu sempre pudesse usufruir dele, mesmo nos dias chuvosos e de noites escuras. E que este céu estrelado pudesse vir embrulhado numa caixa bem bonita, num papel de seda azul marinho – do tom da minha eterna janela – e com fitas prateadas, com o raio do luar que penetrava o interior do meu quarto.
Este sonho vinha ao lado do medo de perder tudo aquilo que me parecia tão vago, mas tão precioso, tão meu. E eu fazia forças, à medida em que crescia, para manter esse sonho perto de mim, secretamente aqui dentro. E as distâncias se confundiam, céu e terra, sonho e realidade, passado e presente, em uma brincadeira interessante e desafiadora. E eu me controlava: Quem sabe se eu ficar na pontinha dos pés? Ou colocar uma escada? Ou então um cometa possa passar para me pegar e me levar para lá? Eu queria alcançar...alcançar era o meu objetivo de vida, meu desejo maior.
E lá sentia e ouvia o sopro dos ventos. Que delícia! Especialmente nas noites quentes do verão da minha cidade natal. Eles me ensinavam as direções e as formas diferentes de viver a vida. Os quatro ventos...norte, sul, leste e oeste. Cada um a seu jeito, fazendo a sua história particular. As quatro filhas de minha família de origem, cada uma guardada carinhosamente em meu coração. As quatro pombas.
E lá eu também ouvia o canto dos passarinhos. Cada dia uma canção, uma lição de vida. Fazia-me lembrar os seus pais, com sua velha sabedoria e bagagem de experiência de vida sendo compartilhada conosco. Às vezes, o canto parecia suave, tocando os ouvidos carinhosamente. Às vezes, parecia bravo, como se quisesse chamar a nossa atenção. Mas, apesar dos diversos ritmos, tons e melodias, o recado era sempre o mesmo: vai-se uma pomba, vai-se outra. E assim se vão todas as pombas do meu pombal. Vão alegremente, perseguindo sonhos, enfrentando corajosamente as nuvens, semeando boas novas e se impulsionando eternamente para a vida.
E hoje é Natal. Eu mesmo gente grande, debruçada na janela esperando que o Papai Noel traga o meu presente. Fecho os meus olhos e abraço as minhas certezas: alcancei o céu. E nele se destacam três lindas estrelas, as mais lindas do universo para mim: Maria Laura, Ana Flávia e Elisa. Correndo atrás de um jogo de pega-pega de duas estrelas maiores, parecem estrelas guias. A estrela pai num abraço grande, acolhendo em seu peito largo as suas estrelas, com muito amor e carinho, formando o Cruzeiro do Sul, numa vibrante torcida azul celestial.
Abro meus olhos. Sinto dentro aquela antiga sensação forte de felicidade. E vejo à minha frente, o meu presente de Natal deixado em frente à minha janela: uma chuva de graça!